01

12.2008

Salvador recorda seus ancestrais africanos na comida, dança, música e fé

salvadorSalvador foi a primeira capital do Brasil Colônia, de 1549 até 1763, quando perdeu o posto para o Rio de Janeiro. Até hoje as duas metrópoles competem para ver quem atrai mais turistas nacionais e estrangeiros. Disputas à parte, Salvador tem um trunfo que nenhuma outra cidade brasileira tem: suas conexões explícitas com a África.

A cultura afro-brasileira se deixa literalmente tocar pelos turistas que escolhem Salvador. Com 80% da população negra, a cidade é no mundo uma das que mais preservam as cores e sons do continente de seus ancestrais escravos. Ao mesmo tempo, não deixa de renovar suas crenças diariamente. O sincretismo da religião, em terreiros ou igrejas; o berimbau e golpes ritmados que dão o tom da capoeira; e a simpatia das baianas de formas rechonchudas, servindo os quitutes à base de azeite de dendê, pimenta e leite de coco, fazem o turista relembrar o tempo inteiro: sim, essa é a Bahia.

Nas ladeiras do Pelourinho, cartão-postal da cidade e patrimônio da humanidade, diante dos casarões que começaram a ser restaurados na década de 1990, o povo simples e batalhador sorri, mesmo diante as dificuldades. E tenta sobreviver, seja como ambulante, com o seu pequeno negócio. Mas quando o fim de tarde chega, ele se escora em um banquinho na praça e vê a vida passar. Há até aqueles que se arriscam em uma partidinha de damas.

Salvador é tão prosaica que parece que já se conhece a cidade em sua primeira visita. Tudo ali é memória, de um livro, um filme, uma música, uma história. O Rio Vermelho de Jorge Amado, a Itaparica de João Ubaldo Ribeiro, a Cidade Baixa dos traços sem pudor de Carybé, a Itapuã de Caymmi, o saudosismo de Caetano e Gil e até o Carnaval de Daniela Mercury e tantos outros.

O baiano é herdeiro legítimo da alegria e do ritmo. Ele dança, primeiro porque sabe, e depois para mostrar aos outros. Os tambores africanos que dão o tom em blocos afro são os mesmos que ressoam na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e nos mais de 200 terreiros de candomblé da cidade.

A cidade tem as cores e o cheiro da saudade de uma África distante, e na impossibilidade de ter o que não podia, tornou-se única. A pimenta que esquenta a culinária é a mesma que faz a vida ter sabor. O soteropolitano é o artista que admira a beleza de sua rotina comum. Ele está lá, na ladeira do Centro Histórico, entre outros lugares, só esperando que o turista descubra essa beleza também.

Praias
Quem se hospeda em Salvador irá encontrar dois tipos diferentes da praia: as banhadas pelo oceano Atlântico, em sua maioria na cidade alta, e as da Baía de Todos os Santos, na cidade baixa.

As praias da Baía de Todos os Santos, infelizmente são em sua maioria impróprias para o banho ou pouco seguras, por isso uma boa opção é buscar em regiões adjacentes praias mais aprazíveis, como as da lha de Itaparica. Lá é possível se chegar por terra, lancha ou balsa. Ou ainda em ilhas mais próximas, como as dos Frades e de Maré, só acessíveis por barco.

A praia de Porto da Barra, apesar de ficar na Baía de Todos os Santos, é bastante freqüentada. É lá o ponto de encontro da diversidade, das tribos distintas de turistas e moradores em busca de águas calmas e verdes.

As 14 praias da orla da capital começam na praia da Barra, onde está localizado o farol da Barra. As mais recomendáveis, no entanto, são as do final, mais afastadas do centro, como a Itapuã de Dorival Caymmi, Stella Maris e Flamengo, que possuem melhor infra-estrutura e faixa de areia mais larga.

As praias de Rio Vermelho e Ondina são movimentas, pois ficam em pleno pólo de hotéis e restaurantes, mas não oferecem grandes paisagens marítimas. O visual começa a melhorar a partir de Jardim de Alá, que exibe coqueirais, e na praia de Piatã.

O município vizinho de Lauro de Freitas, não muito distante do aeroporto, tem praias melhor estruturadas, como Ipitanga, Vilas do Atlântico e Buraquinho.

Construções Históricas
Elevador Lacerda - Ele salta aos olhos de vários pontos da Baía de Todos os Santos. O conjunto de torres com passarela liga a Cidade Baixa à montanha da Cidade Alta desde 1873, quando começou a funcionar com o nome de Elevador Hidráulico da Conceição da Praia. Antônio Lacerda foi comerciante e mentor da Companhia de Transportes Urbanos. O custo da passagem para “viajar” neste cartão-postal é simbólico e a subida ou descida dura meio minuto, em cabines que comportam até 20 pessoas. Praça Cairu, s/n, Cidade Baixa e Praça Tomé de Sousa, s/n, Cidade Alta. Diariamente, 24 horas por dia. Entrada paga.

Plano Inclinado do Pilar - Outra forma de acesso do Pelourinho à Cidade Baixa e vice-versa é esse bondinho, um pouco menos famoso, mas igualmente eficiente, principalmente depois da restauração em 2006. Rua Direita de Santo Antônio, s/n. De seg. a sex. das 7h às 19h, sáb, dom. e feriados até às 13h. Entrada paga.

Forte São Marcelo - Restaurado e reaberto para visitação em 2006. A estrutura em forma de cilindro começou a ser construída em 1650 e as obras só terminaram em 1728. Ela guarda documentos sobre as navegações portuguesas, textos, pinturas e desenhos sobre a história de Salvador dos séculos 16, 17, 18 e 19. Ali ficou preso (até fugir) o militar Bento Gonçalves, líder da Guerra dos Farrapos (1835-1845), entre outros homens que desafiaram o poder imperial. No topo da muralha, uma grandiosa vista da cidade e do mar. Na Baía de Todos os Santos, acesso por barco da marina próxima ao Mercado Modelo, Cidade Baixa, tel: (71) 3321-5286. De ter. a dom., das 9h às 18h. Entrada paga.

Portal da Misericórdia - Projeto recente de revitalização arquitetônica, agrega órgãos públicos e empresas privadas para recuperar prédios e o acervo de arte da Santa Casa de Misericórdia, no Centro Histórico. A fundação do sítio data de 1549, ano da chegada do primeiro governador-geral do Brasil, o militar português Tomé de Sousa. O projeto prevê livrarias, cafeterias, restaurantes e uma galeria da Fundação Pierre Verger. Rua da Misericórdia, 6, Centro Histórico, tel: (71) 3322-7355. De seg. a sáb. das 10 às 16h e dom. das 12h às 16h. Entrada paga.

Forte de Santo Antônio Além do Carmo - No bairro de Santo Antônio, além dos limites da muralha que demarcava a cidade - que só ia até o centro histórico (por isso o nome) - a construção já serviu para a defesa e também como prisão. Hoje, restaurado, é o templo da capoeira na cidade e abriga escolas de mestres como João Pequeno de Pastinha, Curió e Boca Rica, entre outros. Aos sábados e domingos à tarde costuma receber apresentações. Cada escola ensaia e tem rodas de capoeira em dias distintos, é preciso ligar para confirmar. Praça do Triunfo, s/n, Largo de Santo Antônio, tel: (71) 3117-1488. Entrada gratuita.

Vida noturna
Ecléticos, os programas para depois das 20h em Salvador vão da solenidade das missas especiais à descontração das baladas com DJs em bares, boates ou barracas de praia; da intimidade nos restaurantes finos à muvuca dos ensaios ao ar livre. Os terreiros de candomblé também têm forte apelo turístico, mas nem todos se abrem para curiosos. Melhor investigar no local, com moradores, taxistas, funcionários de hotéis e restaurantes ou com os próprios pais e mães de santo.

Blocos - No verão, há ensaios quase todos os dias da semana de diversos blocos para o Carnaval. Alguns têm dia e local fixo, como os do Olodum, que acontecem sempre às terças, no Largo Teresa Batista, no Pelourinho. É válido fazer uma pesquisa antes para saber o que pode encontrar.

Clubes e casas noturnas - Para dançar ao som da batida eletrônica, o Dolce funciona de quarta a sábado no shopping Boulevard 161, em Itaigara. E o Madrre na Av. Otávio Mangabeira, 2.471, de quinta a sábado. Na Barra, em frente ao Farol, a boate Club Lótus tem DJs residentes às sextas e sábados, e o Off Club diversifica a noite com performances de drag-queens e go-go boys. No Pelourinho, dá para sacudir as tranças no Cravo Rastafári, na Praça do Reggae. Se o turista se instalou no Rio Vermelho, vale conhecer, às sextas, a curiosa decoração e as festas da Borracharia, ao ritmo de soul, rock dos anos 70 e samba-rock.

Rio Vermelho - Tem espaços nobres para música ao vivo, como o Café Paris, a Casa da Bossa e o The Twist Pub; neste, até os garçons cantam e dançam.

Bar do Pimentinha - Para quem gosta de baladas mais underground, esse bar, na Boca do Rio, é um prato cheio. Funciona apenas de segunda-feira, porque o dono, Pimentinha, é devoto de São Lázaro e Omolu, o orixá do dia. Pra aumentar a proteção, ele ainda faz questão de pessoalmente benzer os clientes na porta. Se isso não for suficiente, visite o local para conferir a decoração kitsch, com artigos em madeira confeccionados pelo próprio Pimentinha, e a música, pra lá de eclética. Rua Dom Eugênio Salles, 11, tel: (71) 3230-1725.

Gastronomia
Sorveteria da Ribeira - No bairro da Ribeira funciona há mais de 70 anos umas das sorveterias mais gostosas e tradicionais de Salvador. Lá é possível provar sabores que você sequer sabia que existia, como o natagoiaba, além de sorvetes de frutas típicas como biri-biri, umbu, cajá, graviola, etc. Praça General Osório, 87, Ribeira, tel: (71) 3316-5451. Seg. a dom., das 9h à 0h.

Acarajé - Salvador não teria metade da fama que têm hoje se não fossem suas baianas de acarajé. E a disputa na cidade é acirrada. Cira, Dinha e Regina competem para ver quem tem o melhor. Ainda que algumas delas já tenham falecido, o legado do acarajé permanece em suas famílias. Rua Aristides Milton, s/n, Itapuã, de seg. a dom. das 10h às 23h e no Largo da Mariquita, s/n, Rio Vermelho, de seg. a dom. das 15h às 23h (Cira). No Largo de Santana, s/n, Rio Vermelho, de seg. a dom. das 15h às 23h (Regina). Também no Largo de Santana, de seg. a sex. das 16h à 0h, e aos sáb, dom. e feriados a partir das 12h (Dinha).

Moqueca - A tradicional moqueca baiana tem o toque de dendê e a pimenta que a diferencia da capixaba. Essa iguaria da cozinha local pode ser provada em boa parte dos restaurantes da cidade, geralmente com a mesma fórmula, mudando apenas a variedade de frutos do mar. A moqueca do Paraíso Tropical, no entanto, tornou-se imbatível nos últimos anos. Rua Edgar Loureiro, 98-b, Cabula, tel: (71) 3384-7464. De seg. à sáb. das 11h às 23h e dom. das 12h às 22h.

Salvador não sobrevive apenas da culinária típica baiana. Muitos restaurantes de cozinha internacional e contemporânea fazem sucesso na cidade. O chef Marc le Dantec, com seu restaurante homônimo em Ondina, na Av. Oceânica, 3001, é figurinha fácil em premiações gastronômicas na cidade. Outros bons destaques da culinária mais refinada são o Porto Gourmet, na Av. do Contorno, 496, no bairro do Comércio, o Lafayette, no número 1010 da mesma avenida, na Bahia Marina, e no Pelourinho o Maria Mata Mouro, na Rua da Ordem Terceira, 8.

Dê uma nota:
1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars
Loading ... Loading ...

POST SEU COMENTÁRIO